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Gente comum, pregadores e sacanas à procura do paraíso: NOS Alive 16 - Dia 2 Por Carlos Eugénio Augusto & João Lambelho
 
2016-07-09 03:39 inserido por Palco Principal

A corrida aos bilhetes para o segundo dia desta edição de Alive fez com que o mesmo esgotasse rapidamente. Olhando para o cartaz, diríamos que essa sofreguidão se deveria aos Radiohead mas o dia de ontem teve muito muito para oferecer, especialmente no universo mais indie. Logo nas primeiras horas, a australiana Courtney Barnett chegou, viu, tocou e venceu. O mesmo pode dizer-se de Josh Tillman, aka, Father John Misty que deixou a assistência rendida ao primeiro round e os Radiohead deram um concerto maravilhoso. Pelo meio ainda espreitamos a loucura ora psicadélica, ora stooner, dos Tame Impala e sentimos um breve cheirinho a Foals.

NOS Alive 2016 - Dia 2

19.20 – Courtney Barnett – Palco Heineken

Ainda longe das 55 mil almas que assistiram ao concerto de Thom Yorke e comparsas, foi com um espaço do NOS Alive ainda respirável que tivemos a honra de ver os primeiros passos da australiana Courtney Barnett por terras lusas. Sem grandes pressões e com uma entrega do tamanho das suas (grandes) canções, Barnett, entre a timidez e o descaramento de carregar e espalhar riffs diretos ao coração de quem a ouve, deu um excelente concerto demonstrando como o quotidiano, dirão alguns, banal, pode ser a inspiração para contar histórias sonoras.

Notava-se que a grande maioria do público que encheu a tenda do palco Heineken não estava lá por acaso. As letras das músicas estavam na ponta da língua e alguns fãs (não é exagero, acredite-se) exibiam cartazes com frases, ou adaptações, das letras da autora de “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, o muito bom álbum de estreia.

“Dead Fox” abriu o concerto de forma tranquila e decidida que subiu alguns degraus na intensidade com “Debbie Dower”, depois de Courtney afinar a guitarra e deixar-nos a salivar por mais das suas confissões suburbanas.

“An Illustration of Loneliness (Sleepless in New York)” foi a senhora que se seguiu e o ritmo algo dolente deu lugar a uma micro jam session que mostra que a miúda de Melbourne, com um estilo entre o (sacrilégio!) grunge e o garage sabe da poda. Já “Small Poppies”, um tour de force sensual com lampejos sónicos, transcende o habitual formato canção da australiana, reclama, «olho por olho, dente por dente», e faz-nos entrar, mais uma vez, numa história, banal, crua, pessoal, à conta de uma bateria, um baixo e uma guitarra que destilam acordes espartanos.

O cortejo foi celebrado com um tímido “Hey, how are you doing?” e respondido com um poderoso aplauso. A comunhão entre quem estava em cima do palco e a assistência atingiu o pico com “Depreston” e “Pedestrian at Best” e os muitos curiosos que passavam junto da tenda do Heineken assentavam arraiais. Seguiram-se “Elevator Operator”, gingona e com direito a momentos de crowd surf, “Avant Gardener” com Barnett a explorar um solo delicioso e, já a apontar para o final da prestação, “Lance Jr.”, uma das faixas mais antigas e solenes da australiana, fez o elogio à subestimação pessoal. O derradeiro suspiro do concerto chegou com a mensagem algo contraditória de “Nobody Really Cares If You Don't Go To The Party” pois todos os que assistiram à prestação de Courtney Barnett sentiram tudo menos indiferença e podem sentir-se felizes por terem decidido sair de casa e ficar ancorados neste mundo privado sublinhado com eletricidade (e paixão) e dedicação à causa “rock”.

Vento, psicadelismo e alguns tropeções

Com sete espaços culturais distintos, o NOS Alive cresceu e esta, que é a sua décima edição, prova que o evento pode, orgulhosamente, ombrear com os maiores festivais do mundo. A organização estimava a presença de mais de 30 mil estrangeiros durante os três dias de festival e isso é facilmente comprovado a cada “esquina”. Enquanto se passeia, olha para o cardápio e se escolhe o próximo concerto, empurrados pelo já habitual vento que teima em visitar o Passeio Marítimo de Algés todos os anos, os choques culturais rasgam-nos o sorriso e ao pedido de um esclarecimento vindo de terras de Sua Majestade paramos junto ao Raw Coreto. Na altura atuavam os The Loafing Heroes, uma aventura joint venture internacional que junta um irlandês, uma italiana, um norte-americana e um português (não, não é o começo de uma anedota…) cujo ambiente se situa entre o hippie e o folk, e ficamos à conversa com um casal de Manchester, adeptos do City, que nos confidenciava que o NOS Alive estava ao nível de, por exemplo, Coachella.

Feitas as despedidas, e quando os Foals faziam ecoar “Inhaler” e se preparavam para despedir da multidão que se tinha juntado no palco NOS, tivemos ainda tempo para assistir a um par de quedas que deixariam muitos futebolistas roídos de inveja mas que dificilmente arrancariam uma grande penalidade. A culpa não é do árbitro mas sim dos enormes tapetes verdes, sem linhas, que já começam a enrolar nas pontas e a apanhar os mais distraídos.

Felizmente que as lesões não foram impeditivas de continuar em jogo e podemos mesmo afiançar a forma destes jogadores pois quem os viu a saltar, cantar e vibrar com os Tame Impala nem sequer se lembraria de tais acidentes. Os australianos foram mesmo como uma espécie de analgésico pois o seu psicadelismo sintético, cruzado com momentos stooner, encheu de euforia os muitos milhares que tiveram oportunidade de assistir a canções como “Let It Happen”, com direito a uma primeira chuva de papelinhos coloridos, “The Moment”, a proporcionar um incauto strip feminino, ou “Elephant”. O ambiente estava bom, o público delirante e entregue, mas tínhamos um compromisso “litúrgico” e o mestre de cerimónias é merecedor de ver a sua congregação reunida a horas.

21.40 – Father John Misty – Palco Heineken

Com a tenda do Palco Heineken muito vazia, situação rara e da qual a prestação dos Tame Impala parecia ser a principal responsável, aguardávamos a prestação de Father John Misty, o mais recente alter-ego de Joshua Tillman, que já nos havia visitado no mesmo espaço, em 2011, mas no papel de baterista dos (grandes) Fleet Foxes. O palco, preparado com uma cortina em tom escarlate, rapidamente se encheu com a presença do esguio Tillman que, sem demoras e desde o primeiro momento do concerto, agarrou o público e o seduziu com mestria e como bem o quis.

Qual pregador, Tillman, de fato trajado, dono de uma voz que vagueia entre o doce e o “gutural”, agarrou-se a “Hollywood Forever Cemetery Sings” como se fosse a última prestação da sua vida, tal a notória dedicação. Dramático e num mundo só dele, mas no qual tivemos a honra de entrar, o norte-americano parte a loiça toda com “When You're Smiling and Astride Me”, tema do álbum “I Love You Heneybear” e do qual foi retirada a maioria das canções da noite. Tal como diz o poema cantado, vemos Tillman como ele é, uma alma apaixonada, que dança, seduz, e se ajoelha perante a música e o público. Uma toada calma ajuda o artista a entrar no papel de crooner e “Only Son of the Ladiesman” leva-nos para ambientes mais indie folk a lembrar uma certas raposas enquanto “Nothing Good Ever Happens at the Goddamn Thirsty Crow” molda a atmosfera com pinceladas mais blusy.

De coração partido, e com o público rendido total e incondicionalmente a um grande concerto, “Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)” volta a trazer fantasmas dos Fleet Foxes e a seguir, apenas na companhia de um piano, “Bored in the Usa” é responsável por um dos momentos de maior partilha entre público e banda através de um coro “certinho”. Entretanto, a tenda vazia deu espaço a uma bem composta assistência ainda que alguns olhassem para o relógio, pois os Radiohead tocavam daqui a pouco.

Mas a coisa estava tão boa que abandoná-la seria, lá está, um pecado capital. Indiferente a essa hesitação, e confessando a sua pouca habilidade para comunicar com o público, Joshua Tillman destilava ódios e deceções com “Holy Shit” e, depois, “True Affection”, de arranque levemente eletrónico, demostraria uma faceta mais pop coroada com uma descida do homem, cujo espírito lembra aqui e ali Nick Cave, não ao inferno mais sim perto de um público que o agarrou, abraçou e agradeceu. O final do concerto aproximava-se e em ritmo country afolkalhado “I'm Writing a Novel” abriu caminho para o dramático “I Love You, Honeybear”. O final do espetáculo fez-se com a mais agitada “The Ideal Husband”, e podemos dizer que muitos corações femininos não desdenhariam esposar o rapaz Tillman, espelho do desalinho barbudo, responsável por um dos momentos mais intensos do segundo dia do festival.

22.45 – Radiohead – Palco NOS

A recente edição de “A Moon Shaped Pool” deixou muitos dos fãs dos Radiohead surpreendidos. Ainda que a banda de Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O'Brien e Philip Selway nos tenha habituado a surpresas e a algumas manobras de mercado que ousam desafiar os seus normais cânones, é sempre com muita ansiedade que se recebe um disco criado pelo quinteto que assinou alguns dos trabalhos mais importantes das últimas décadas e que ousam desafiar e reconstruir o seu som destruindo barreias e fronteiras (sabiamente) por si criadas.

De forma apaixonada, por vezes até matemática mas nunca alvo de facilitismo, os Radiohead construíram uma história especial e lograram reunir um séquito de seguidores acérrimos, e foi isso que se sentiu ao longo de mais de duas horas de um extraordinário concerto cujo palco transformado e decorado com espírito cinematográfico seria poiso de um dos melhores filmes da história de todas as edições do festival Alive.

A viagem começou inteiramente dedicada ao já referido “A Moon Shaped Pool” com a banda a respeitar inclusive a ordem de apresentação do disco. Assim, a pujante “Burn the Witch”, e as seminais “Daydreaming” e “Decks Dark” faziam crescer uma entrega e comunhão entre banda e público que nunca se desfez, e logrou mesmo momentos de puro êxtase lá mais para o final da atuação. A colheita do álbum de 2016 continuou com o puro exorcismo que é “Desert Island Disk”, numa apresentação acústica a apelar a momentos de acalmia anterior a fazer a nossa mente recuar até aos momentos mais reflexivos de Jim Morrison e companhia. “Full Stop” continuaria essa demanda mas agora com sinais mais sónicos a mostrar que o caminho da evolução se faz com quebras e ruturas evitando assim o marasmo da monotonia.

Em territórios mais pop, “My Iron Lung” fez despertar sentimentos mais letárgicos e recuou até aos momentos mais próximos de casamento perfeito de que as guitarras já foram sinónimo quando falamos de Radiohead. “Talk Show Host” faz regressar um certo sentimento quebrante e ligeiramente swingante carregando de batidas que aliam na perfeição baixo, bateria e elementos eletrónicos, situação semelhante acontecendo com a muito bem acolhida “LotusFlower”, retirada de “The King of Limbs”.

A música soa límpida, direta ao coração, e para isso é decisiva a entrega dos músicos e especialmente do frontman Yorke, hoje a personificação de um comunicador bem na sua pele, que ousa “dançar” e desafiar o público com algumas interjeições em detrimento de uma qualquer tentativa de diálogo.

Alvo de muitas versões mix, “The Gloaming”, safra de “Hail to the Thief”, traz uma tensão crescente carregada de dub que se viu atenuada com “Exit Music (To a Film)”, uma das pérolas de “Ok Computador”. O público agradeceu, fez silêncio e cantou de si para si, o mesmo acontecendo com “The Numbers” e “Identikit”, novas entradas em “A Moon Shaped Pool” e dois dos seus exemplos mais doces, ternos e cheios de alma. “Reckoner” traz “In Rainbows” à praça pública e “Everything in its Right Places”, recebida em delírio, anuncia “Kid A” e “Idioteque” que fazem os corações disparar. Canta-se, grita-se, vibra-se, chora-se. A música entra em nós e fica. E porque não saltar ainda mais alto? É isso que se faz à conta de “Bodysnatchers”. Antes da primeira paragem para abastecer energias, “Street Spirit (Fade Out)” faz-nos ir a um baú chamado “The Bends” que voltaria a ser aberto um pouco depois.

Sob uma estrondosa ovação, a banda sai de palco para entrar pouco depois. Tínhamos direito a encore, coisa rara nestes dias de Alive. O regresso foi sinónimo da ensimesmada e eletrónica “Bloom” - que algures no meio do público motivou um especial pedido de casamento com direito a anel -, logo seguido de “Paranoid Android”, “Nude”, da errónea soma de “2 + 2 = 5” e “There There”, ambas de “Hail to the Thief”.

Depois de duas horas de concerto, os Radiohead saíram mas voltariam com duas enormíssimas surpresas. Se se dissesse que se ouviria “Creep” e “Karma Police” na noite de ontem poucos acreditariam, principalmente Sharon, a inglesa que ao nosso lado, emocionada, afirmava que já tinha visto os Radiohead uma mão-cheia de vezes e nunca tinha ouvido o tema retirado de “Pablo Honey”. Estes dois últimos momentos, cantados apenas e a uma só voz, figuras angelicais incluídas, arrepiam, marcam e deixam sequelas, das boas, pois todos, mas todos os que assistiram a este concerto, pertenciam ou partilharam um mesmo lugar: o paraíso.

Texto: Carlos Eugénio Augusto | Fotografias: João Lambelho

 

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